Freguesa,
Eu só espero que você não se convença que a sua solução é a solidão.
Eu só espero que você encontre coragem pra acreditar no que eu te disse.
E se, eventualmente, depois de tudo isso, você se ver perdida, sabe onde me procurar.
Ainda dá pra resgatar a moedinha do fundo do poço. E a gente pode ignorar as coisas ditas nessa noite de ira.
Só vê se não demora.
Tenta ser breve,
por nós.
Muitas vezes chove naquela terra de ninguém. Chuva, tempestade, tormenta, raio, trovão. O povo se esconde, dentro das casas de pedra, e se põe a pensar. E como a tempestade nunca termina, o povo nunca para de pensar. E pensa. E os vizinhos daquela terra de ninguém não sabem que os pingos da chuva são idéias, e a terra fértil é a própria consciência.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2014
domingo, 14 de dezembro de 2014
Diálogo
Naquela esquina havia um certo vendedor, que vivia de vender artigos curiosos. Alguns diziam que ele vendia sonhos, outros, ilusão. Pouco se sabia sobre ele, mas era conhecido e prosperava. Certo dia uma bela moça chegou perto de seu tabuleiro, e ele rapidamente pôs-se a vender seus produtos. Esperto que era, notou na moça certa aflição, e do fundo da tenda retirou do seu baú secreto seus produtos mais valiosos. "Tenho uma garrafa de sorrisos, uma baú com a felicidade, uma caixinha com amor e esta moedinha mágica" disse, correndo a moeda por entre os nós dos dedos, "que você pode jogar no poço e fazer um pedido". A moça sorriu e perguntou "Seriam pedidos silenciosos?". E seu sorriso foi tão bonito que o coração do vendedor amoleceu. Havia algo diferente nela. Poderia ser o sorriso, os olhos profundos, a silhueta graciosa. Algo mexeu com ele, e acabou dizendo, meio bobo: "São sim, a gosto da freguesa". A moça sorriu de novo, e seu riso era mesmo bonito: quem passava parava e sorria também. "Quero a moedinha!" disse, parecendo mais feliz."É uma boa escolha", respondeu o vendedor, encantado. "Você pode pegar todos, se quiser", apressou-se a dizer "Sou barateiro: você pode pagar com sorrisos", acrescentou, sem jeito, e, por fim, se desmanchou: "Posso te dar o meu coração numa bandeja também. Ele vai até de graça, mas se você me der o seu ficarei agradecido. E será um excelente negócio, que te parece?". A moça sorriu, de novo, sem se assustar e de novo o vendedor sorriu, aliviado. Era como se soubessem da iminência daquele episódio. Ela perguntou: "Essa negociação é pra hoje?", e entristeceu levemente: "Porque algumas coisas não me parecem viáveis". "Aqui é a freguesa que manda", disse prontamente o vendedor, só pra arrancar mais um sorriso dela (e conseguiu). "Posso ir te pagando com os sorrisos então", ela disse. "Negócio fechado, freguesa", respondeu ele, em troca. "Sorrisos pela moeda mágica!", disse a moça, subitamente. "Sim, freguesa, mas negócios são negócios, você tem que pagar" e ela sorriu de novo, pagando. O vendedor sorriu também, mais uma vez. "Os outros três itens são pra depois?", perguntou "Quatro, aliás" corrigiu, dando ênfase ao coração na bandeja, "E por sorrisos, que pechincha!". A moça parou subitamente, séria, escondendo o sorriso de uma maneira brincalhona, seu cabelo lhe caiu sobre o rosto e num gesto gracioso ela o arrumou, dizendo: "Está desfazendo dos sorrisos da freguesa?". Seu corpo esguio pendeu pro lado, e o vendedor acompanhou o movimento, para o outro lado, como numa dança. Dessa vez ele quem sorriu: "Perdão freguesa, expressei-me mal. É que sou um homem dos negócios, essa coisa de atuação nunca deu certo pra mim. Quis dizer que os meus itens são valiosos, acho que faria bom uso deles. Quer que eu embale a moeda pra viagem?". Ela riu das palavras do vendedor, e do modo como elas foram ditas de modo desajeitado, porém com profunda sinceridade. Havia nele um desejo maior do que simplesmente vender as coisas. Ele queria vender pra ela, e ela sabia disso. E queria comprar tudo. "Entendi", respondeu. "Não precisa embalar não. Prefiro tê-la agora". O vendedor estendeu a moeda e deixou-a cair na mão da moça. Sua mão pousou sobre as dela e seus olhares se encontraram. "Faça bom uso", disse ele. Desviou o olhar sem jeito, mas não resistiu e olhou pra ela de novo "E a freguesa quer dizer porque não quer a garrafa de sorrisos, o baú com a felicidade e a caixinha com o amor?" indagou, sem jeito, deixando o coração de lado: naquele momento teve medo. "Acho que você devia pegá-los, desculpe a invasão", disse com a voz mansa, que diminuía aos poucos. "Eu quero!", respondeu ela rapidamente, como se com o mesmo medo que ele tinha, como se para animá-lo de novo. "Mas eu queria pegar aos poucos: tenho medo de não tê-los mais tarde, de esgotá-los". "Pode pegar todos de uma vez, se for a vontade de freguesa" apressou-se a dizer o vendedor. "Garanto que sempre vai chegar coisa nova. E pra fazer propaganda do produto: o baú da felicidade e caixinha com amor são tão fundos que eu nem conheço o fim deles. Até digo pra você tomar cuidado pra não se perder por ali. E veja que coisa bonita, nunca ninguém os teve, serão exclusivos seus. Que te parece?". A moça sorriu, e havia leveza no ar "Você está me convencendo", disse. "Sou bom nisso. É assim que se sobrevive aos negócios", gabou-se o vendedor. "Posso te dizer mais tarde?", perguntou a moça. "Pode sim, freguesa. Minha vontade é de vendê-los logo, mas posso guardá-los pra você. Ficarei feliz em saber que esses itens tão preciosos tem um comprador. E não esquece do coração na bandeja também", arriscou ele, sem resistir "Se você quiser pode até pagar depois", continuou, meio desesperado. "Mas é meio triste isso de coração na bandeja, não acha?" indagou a moça, pra surpresa do vendedor. Ele sorriu e disse: "Ora freguesa, não desfaça do produto. Ele tá aí de bom grado, e é bem difícil por ele aí, na verdade. A freguesa é meio insegura, não é? Moça tão bonita, não deveria ser assim". Os olhares se encontraram de novo, e ela sorriu. "Eu mal consigo olhar tanto pra esses olhos tão profundos", disse ele. Ela desviou o olhar e contemplou o vazio por alguns instantes "É, mas eles estão caídos e trêmulos agora", disse, sem jeito. "A freguesa tem sono, ou choras? É tristeza que ainda a aflige?", indagou o vendedor, preocupado. "Se eventualmente eu fizer cair lágrimas de felicidade aí posso até largar os negócios: viro viajante. Posso te levar pra um tal paraíso perdido, você teria um lugar garantido no meu bote". A moça sorriu, endireitou-se, balançou sobre as pernas - e ele também, em sincronia - e ela disse: "Tenho um pouco de medo". "Ora, a freguesa pode ficar tranquila. Primeiro nada que ela não faça de coração aberto será cobrado. E segundo: é uma terra cheia de cores e tons". Ela sorriu, aparentemente amolecida, e do seu riso bobo perguntou em tom de brincadeira. : "Tem pássaros lá?". O vendedor sorriu e perguntou: "A freguesa gosta de pássaros? Tem o que ela quiser lá. Acontece até d'eu ter uma amostra dessa terra por aqui", disse revirando o tabuleiro. Achou um pequeno conta gotas e estendeu a moça: "Basta uma gotinha na água que você beber, e você sonhará com este paraíso perdido". A moça aceitou instantaneamente, sorrindo. "Vou precisar", e riu. "Espero que a terra te encante, freguesa. Basta ser sincera e desejar profundo. Espero que você venha logo comprar essas coisas de mim".
Ela sorriu e olhou pra ele. Ele sorriu e olhou pra ela.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Amor verde
Transcenda o contexto do meu texto, o vazio da minha alma, palma a palma. Abrace este amor verde e me beije. Uma vez mais, porque está frio, de novo, porque chove, e mais uma vez, porque eu quero. Melhor: desista de ir embora. Fique aqui. Se no jogue no poço, no meu pescoço, cause um alvoroço. Pinte o sol no céu nublado da minha mente, ou deixe lá chover e me abrace. Tanque a porta, pare o tempo, quebre o relógio - ele me dá ódio e você é o meu ópio. Encontre-me num dia ensolarado e pare-me ao acaso. Arranque-me um sorriso, deixe eu te dar um abraço: me tire do abismo, me dê mais um sorriso e me devolva o riso. Tranque esta porta, só por algumas horas, aqui e agora.
Me beije, seja, ouse, veja. Se perca, enlouqueça. Surte, ame, jure: não se segure.
Me beije, seja, ouse, veja. Se perca, enlouqueça. Surte, ame, jure: não se segure.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
o som da sua voz
"não me deixa na chuva, não
não me tire do coração,
não me diga que vai sem mim
...
não me deixe na noite, não
na travessa da desolação
não me diga que quer assim"
domingo, 7 de dezembro de 2014
e, se, por acaso, isso acabar e a gente se encontrar
um sorriso,
pra mudar o mundo,
e se, por acaso
vier com olhos de felicidade
ele pinta no céu aveludado um sol brilhante
mesmo que o dia esteja nublado
um olhar,
pro tempo parar,
e se, por acaso,
os nossos olhos se encontrarem
eles destrancam o baú da alma
e ela há de transbordar
um cheiro,
pro coração bater forte
e se, por acaso,
trocam-se algumas palavras
há felicidade
mesmo num dia triste
um abraço,
pra se cumprimentar ou despedir
e se, por acaso,
ele é forte e enlaça,
e deixa no laço um desejo de ficar
o dia tem mais graça
um beijo,
pra ficar na memória
e se, por acaso,
não.
não precisa haver nada além.
mas
e
se
por acaso
isso acabar
e a gente puder
se encontrar
e
enfim
começar
há de haver felicidade.
pra mudar o mundo,
e se, por acaso
vier com olhos de felicidade
ele pinta no céu aveludado um sol brilhante
mesmo que o dia esteja nublado
um olhar,
pro tempo parar,
e se, por acaso,
os nossos olhos se encontrarem
eles destrancam o baú da alma
e ela há de transbordar
um cheiro,
pro coração bater forte
e se, por acaso,
trocam-se algumas palavras
há felicidade
mesmo num dia triste
um abraço,
pra se cumprimentar ou despedir
e se, por acaso,
ele é forte e enlaça,
e deixa no laço um desejo de ficar
o dia tem mais graça
um beijo,
pra ficar na memória
e se, por acaso,
não.
não precisa haver nada além.
mas
e
se
por acaso
isso acabar
e a gente puder
se encontrar
e
enfim
começar
há de haver felicidade.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Espera
Já passou da hora de você chegar
E eu ainda estou te esperando
Não há luz, nem cor, nem cheiro, nem música. Não há paz.
Eu não estou bêbado, já vai dar meia noite
Tic-tac: o relógio me lembra como o tempo é fugaz.
Essa espera angustia
Já vai dar uma,
Estou no mesmo lugar.
Esse silêncio que corta
A retina da rotina, dói.
Neste dia ensolarado
de manhã aveludada
Pintei um desejo no céu azul
Em meio aos sons aturdidos dessa cidade
Sussurrei os sonhos febris
Sonhados no calor do verão
São quase duas
E eu ainda sinto o gosto
Ainda há um sorriso
Um desejo escondido
Uma vontade de parar o tempo
Naquele momento.
Estou nu, mais uma vez
De peito aberto, uma vez mais
Meu coração numa bandeja.
Aquela carta numa caixa
É tarde, não vejo nada da janela
Queria ver o sol de novo com você.
Procuro nesses desencontros
Os nossos encontros
Nossas confissões, ditas suavemente,
Os nossos desejos,
Escondidos á meia luz
E me pergunto
O que vai ser disso aqui?
Vai dar três
E eu vou me render
Ás sombras
Dessa solidão.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Lembrete
Se tudo der errado, procure-me do mesmo jeito que tudo começou.
E eu vou saber que é a hora de fazer as coisas certas.
E eu vou saber que é a hora de fazer as coisas certas.
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Tipo
Você é do tipo que faz um X na minha mente e diz "decifra-me, ou te devoro".
E mesmo que eu te decifrasse, você teria várias outras letras com as quais ocupar a gangorra da minha mente.
E mesmo que eu te decifrasse, você teria várias outras letras com as quais ocupar a gangorra da minha mente.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Ohrwurm
Estou de novo neste lugar onde os ventos sopram de uma maneira poética. Estou de novo encarando essa árvore cujas folhas secas ainda caem. Estou de novo olhando as folhas secas caírem, e se amontoarem no chão tão cheias de dor e arrependimento de terem ousado a dor da queda. Estou de novo embriagado debaixo dessa meia luz. Estou de novo desejando escutar essa música em um volume tão alto que faça meu ouvidos explodirem e eu não escute mais o que essa gente fale.
Canção de desgosto
Queria arrancar essa dor do peito,
como se pudesse arrancar a própria carne.
Um tiro no peito, vários remédios.
Lançar-me ao sol, bem de perto
queimar-me por inteiro.
Livrar-me da sombra,
Que insiste em me abraçar.
Quero cavar um buraco no chão
E enterrar essas coisas lá.
Ou voar pra dez mil milhas daqui
Pra recomeçar.
Espero ver mais coragem
Em outros rostos
Sentir outro gosto
que não o desgosto.
como se pudesse arrancar a própria carne.
Um tiro no peito, vários remédios.
Lançar-me ao sol, bem de perto
queimar-me por inteiro.
Livrar-me da sombra,
Que insiste em me abraçar.
Quero cavar um buraco no chão
E enterrar essas coisas lá.
Ou voar pra dez mil milhas daqui
Pra recomeçar.
Espero ver mais coragem
Em outros rostos
Sentir outro gosto
que não o desgosto.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
O destino das folhas
Sempre que a brisa é forte as folhas da árvore dançam, embaladas num ritmo suave. Normalmente frágeis, elas caem no chão ao serem embaladas. A queda é lenta e harmoniosa. Devagar as folhas pairam sob o ar, como se resistissem a queda de inicio, mas logo aceitam e se rendem ao destino iminente. Depois de viver a queda, chegam ao chão. Chegar ao chão é duro. Chega-se ao chão depois de muito tempo, mas sempre há a sensação de que chegou-se ali muito rápido. O gosto do chão é ruim. Tão amargo quanto o gosto do desgosto. Ao chegar no chão, a lembrança da queda é sempre iminente. As folhas, ao fim da queda, se desfazem. Retornam à terra. E pro tempo futuro deixam de existir. É, na verdade, como se nunca tivessem existido. Depois o tempo passa e sopra a pilha de folhas mortas no chão, carregando um punhado pra longe. Cada dia um punhado. Como se quisesse levar todas as folhas dali e deixar só aquele vazio que resta da queda.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
O diálogo do palhaço triste e da bailarina que tinha feito ele feliz
"É tão clichê tudo isso."
"Isso o que?"
"De ajudar os outros e não ajudar a si mesmo"
"É mais fácil ver as coisas de fora da caixa"
"É, poeta? Me diz você ..."
"Eu não: sou só fingidor"
"Porque você escolheu ser assim?"
"Eu escolhi? Não lembro de ter escolhido"
"O que você faz pra ser feliz?"
"Não faço, não sou"
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Silenciosa cólera
O papel branco fita o pincel, malandro
E o convida pra dançar
não saem textos dessa folha em branco.
Há uma melodia,
Que esconde a cólera consigo
Mas esses acordes não combinam,
São tronchos, e ela já não faz mais sentido
Há esse silêncio, agora
Da quimera de sonhos, jogada no asilo
Pra rolar alguns dados e esperar a sorte
Guardar desejos em sigilo
Há esse desejo, que tenta,
em vão,
Empurrar pra fora palavras não ditas
O grito está preso na garganta
Engasga e golfa
Se debate e luta
Está em cólera
E esse silêncio corta.
E o convida pra dançar
não saem textos dessa folha em branco.
Há uma melodia,
Que esconde a cólera consigo
Mas esses acordes não combinam,
São tronchos, e ela já não faz mais sentido
Há esse silêncio, agora
Da quimera de sonhos, jogada no asilo
Pra rolar alguns dados e esperar a sorte
Guardar desejos em sigilo
Há esse desejo, que tenta,
em vão,
Empurrar pra fora palavras não ditas
O grito está preso na garganta
Engasga e golfa
Se debate e luta
Está em cólera
E esse silêncio corta.
domingo, 26 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Último
eu olho e nada vejo, meus olhos só vagueiam
te procuro, mas não acho, e me perco
amo, e em silêncio frustrado encolerizo e quebro o espelho
e só o que me resta já não me basta
sabia que isso seria uma ironia: teria que juntar esses cacos,
que o espelho se partiria em mil pedaços
seria melhor, talvez, ter guardado tudo numa garrafa e jogado fora
assim, como quem não quer nada
do mesmo modo que as minhas perguntas são ignoradas
jeito não tenho a dar
mais e mais quero jogar tudo fora nessas águas negras, neste mar
profundo e desconhecido.
te procuro, mas não acho, e me perco
amo, e em silêncio frustrado encolerizo e quebro o espelho
e só o que me resta já não me basta
sabia que isso seria uma ironia: teria que juntar esses cacos,
que o espelho se partiria em mil pedaços
seria melhor, talvez, ter guardado tudo numa garrafa e jogado fora
assim, como quem não quer nada
do mesmo modo que as minhas perguntas são ignoradas
jeito não tenho a dar
mais e mais quero jogar tudo fora nessas águas negras, neste mar
profundo e desconhecido.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Chuva
Havia um punhado de textos que deveriam ter sido escritos no vapor no espelho, mas água morna não embaça vidro, e os versos tão bonitos foram perdidos. Escorreram pelo ralo como mentiras tão bem feitas e se perderam num esgoto imundo, nebuloso como os escombros de uma mente atormentada. Quando os versos tão bonitos tentaram ser resgatados formaram um texto troncho. Da neblina fez-se chuva. E choveu, de novo. Mas chove sempre nos jardins de uma mente nebulosa. Peneira uma chuvinha fina, daquelas que não molha. E ao mesmo tempo daquelas que é suficiente pra fazer desaguar no oceano a melancolia desses dias cinzentos. Tão rápido ela faz-se tempestade e traga pra dentro de si todo o céu azul que desperta a manhã. A chuva silencia o barulho. E é o barulho que liga a gente ao mundo. Ele atesta existência. Quando o barulho vira música, há de haver felicidade. Mas com essa chuva eu nada posso ouvir.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Tempo
Faz tempo que o sol não jorra da janela. Faz tempo que não chove e é frio do lado de fora. Faz tempo que a casca da árvore cresce e a floresta adormece. Faz tempo que a fumaça do cigarro queima e ele não apaga. Faz tempo que esse cheiro toma conta da casa e ninguém sente. Faz tempo que a tristeza é um colar e faz tempo que ela é uma corrente. Faz tempo que as palavras não são ditas. Faz tempo que a falta é sentida. Faz tempo que a cidade não é mais tão bonita, faz tempo que as coisas fazem sentido. Faz tempo que a esperança está doente e faz tempo que ninguém sabe se ela vai se recuperar. Faz tempo que os males são irremediáveis e faz tempo que tenta-se negar isso. Faz tempo que tem-se dado tempo ao tempo e faz tempo que o conselho deixou de servir. Faz tempo que as tentativas são frustradas. Faz tempo que faz tempo tudo isso. O tempo faz o tempo. O tempo faz com que a janela fique fechada. O tempo faz com que só faça sol e seja quente. O tempo faz com que a floresta adormeça. O tempo faz com que o cheiro seja imperceptível. O tempo faz com que a tristeza passe. O tempo faz com que a tristeza volte. O tempo faz com que as palavras não saiam da boca. O tempo faz sentir falta. O tempo faz com que a cidade seja feia. O tempo faz com que as coisas não tenham sentido. O tempo adoece a esperança e faz com que ninguém saiba da sua saúde. O tempo não remedia o mal, e se o tempo não remedia o mal, nada mais remedia. O tempo faz com que o tempo não tenha tempo e que os conselhos se desgastem. O tempo faz tempo todo tempo. O tempo fecha a janela. Faz tempo que todo o meu amor é vão. O tempo faz que todo meu amor é vão. Vão faz o tempo e todo o meu amor. O meu amor é vão e faz o tempo. Vão, oh meu amor, é o tempo. Faz tempo.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
O brado de ódio
Nu, de novo, as feridas abertas.
Mais uma vez está de peito aperto.
Está sentado na rua, desolado,
banhado pela luz alaranjada
daquela cidade imunda.
Está frustrado,
de novo,
cansado de vagar a esmo.
O tempo é muito vagaroso:
ouve-se uma pergunta tímida
- "até quando?" -,
mas não há resposta que tranquilize
não existem palavras
além das que se quer ouvir
que podem mudar aquilo.
Está com raiva, de novo
a cinzenta canção de dor e perda se transforma mais uma vez num brado de ódio
nele engasga toda angústia,
todo desejo de mudança,
toda frustração da estar no mesmo lugar a tanto tempo.
Nele engasga a falta de perspectiva,
o desespero, o cansaço de tentar e errar e repetir esse processo infinitamente.
Nele está o sentimento de mal irremediável:
tenta relutar em aceitar o fato, mas segue e termina como está.
Nele está a agonia de não perceber as coisas escondidas á meia luz,
mas de enxergar os espaços na poesia social
e não conseguir ocupá-los.
Sobre ele paira a ausência, na forma de uma sombra escura.
Mas o brado é silencioso.
Habita os escombros de uma mente nebulosa
e é como um sentimento adormecido,
que ora desperta e preenche
e ora adormece e reconforta.
Mais uma vez está de peito aperto.
Está sentado na rua, desolado,
banhado pela luz alaranjada
daquela cidade imunda.
Está frustrado,
de novo,
cansado de vagar a esmo.
O tempo é muito vagaroso:
ouve-se uma pergunta tímida
- "até quando?" -,
mas não há resposta que tranquilize
não existem palavras
além das que se quer ouvir
que podem mudar aquilo.
Está com raiva, de novo
a cinzenta canção de dor e perda se transforma mais uma vez num brado de ódio
nele engasga toda angústia,
todo desejo de mudança,
toda frustração da estar no mesmo lugar a tanto tempo.
Nele engasga a falta de perspectiva,
o desespero, o cansaço de tentar e errar e repetir esse processo infinitamente.
Nele está o sentimento de mal irremediável:
tenta relutar em aceitar o fato, mas segue e termina como está.
Nele está a agonia de não perceber as coisas escondidas á meia luz,
mas de enxergar os espaços na poesia social
e não conseguir ocupá-los.
Sobre ele paira a ausência, na forma de uma sombra escura.
Mas o brado é silencioso.
Habita os escombros de uma mente nebulosa
e é como um sentimento adormecido,
que ora desperta e preenche
e ora adormece e reconforta.
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