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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O hiato: os últimos rumores sobre vendedor e freguesa.

Foi-se a lua adversa,
Restaram só as sombras da noite.
Uma moedinha esquecida na fonte,
Algumas garrafas cheias de memória.
E uma delas vazia, a mais importante.
Além do coração na mesa.
Reinava o silêncio.
Pairava no ar uma pergunta:
Tudo vão,
Ou não

(?)

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

52.287

E eis que ali, mais uma vez, estava o vendedor. Prostrava-se atrás de seu tabuleiro, recostado indiferentemente sobre a cadeira. Nas mãos tinha um pequeno pedaço de pano, um quadrado de tecido macio sem nenhum detalhe com a qual carinhosamente polia um conjunto de pequenas garrafas. Várias delas estavam dispostas sobre o tabuleiro, e estranhamente nenhum dos itens usuais que ele costumava vender estavam ali junto com ele. As garrafinhas que estavam lá eram diferentes das usuais. Na verdade, hoje não era um dia de negócios. Era uma manhã azulada quando ele acordou daquele dia e, diferentemente do resto banal das pessoas, o azul lhe trouxe uma tristeza grande. A flor da hipocondria que nascia em seu jardim era azul, dessa vez. Mas eram nos dias ensolarados que as pessoas costumavam comprar felicidade, que ele vendia em garrafas que não eram como aquelas. Ocorre que o dia nublou: uma tempestade nebulosa abraçou a cidade, e em dias cinzentos não há porque comprar felicidade. Infelizmente o vendedor não possuía tristeza e angústia para vender que não bastassem as próprias, e em dias de chuva quer-se tristeza e angústia. Quem passava ali sentia uma falta pungente. Havia um pedaço faltante naquele quebra cabeça. Uma peça, e daquelas importantes, que dificultam o entendimento da obra. Certamente, arriscavam dizer com pomposa certeza, a bela moça que havia feito negócios com ele recentemente não viria mais vê-lo, pelo menos por um tempo. E era verdade. A despeito de seu sincero convite para o paraíso perdido, a moça preferira embarcar numa outra viagem pra uma terra diferente. Pegou a moeda mágica que havia comprado, sussurrou um desejo na fonte e se foi. Não se sabe ao certo para onde, e que terras, áridas ou verdejantes, ela iria encontrar. Peneirava uma chuvinha fina agora, igual ao choro dele naquele momento ao polir com carinho as garrafinhas. Era um choro que lavava a alma. E misturado a ele havia um sorriso, que o fazia provar das próprias lágrimas. Tinham gosto de despedida, mas deixavam consigo uma lembrança, uma possibilidade - não promessa, veja - de retorno, um desejo profundo guardado no fundo da alma que ele, tão bem calejado, guardaria durante longo tempo. Devido a tal incidente retirara as garrafas de dentro de um baú que guardava debaixo do tabuleiro. Eram as garrafas de memórias. Memórias dele. Não as venderia, jamais, por isso estava fechado para negócios. Acontece que nessas horas é comum recorrer a memória em busca de conforto. Polia uma por uma com serena determinação, e sempre ocorria de se perder por ali. Depois de terminar as memórias, guardou-as no baú, mas antes de fazê-lo, pegou de dentro do baú outro baú. Um baú dentro de um baú, para guardar segredos profundos. Era uma caixa bem simples, de madeira opaca. Nenhum detalhe, nenhum alarde. Nenhuma anunciação pra guardar memórias profundas. Dentro dela havia dois frascos de vidro em formato de esfera. Um deles era totalmente sólido, e na solidez (pra não dizer solidão, que cabia também ao momento) curvas pareciam se perder, e do outro emanava uma voz calma e sincera. Eram objetos delicados, guardados com um tom sentimental. Neste momento o vendedor passou longo tempo a olhá-los. Colocou-os sobre o tabuleiro - agora vazio. Sua expressão permaneceu imóvel, tácita, sóbria. Havia um tom de pesar nos seus olhos e um sentimento de dor pelos objetos: uma leve mistura que culminava numa raiva sibilante. Por fim saiu de longa meditação e tirou do bolso um outro frasco: um terceiro, de mesmo formato que os outros três. A diferença é que esse terceiro acabara de ser feito. E a grande diferença é que era oco por dentro, e havia sido feito pra ser daquela forma e abrigar dentro de si o que viesse. Esse frasco arrancou um sorriso do vendedor. Um sorriso que lembrava a felicidade. E eis que então ele se convence de que a caixa não era lugar para aquela peça. Guarda o baú do baú debaixo do tabuleiro e galga a mais alta parte da estante atrás da sua cadeira, onde os clientes sempre passavam os olhos. Lá, bem no alto, põe a esfera oca. Mas ao remeter as outras se dá contas de que nenhuma era tão bonita e tão verdadeira quanto a última. Não se sentia realmente satisfeito ou agradecido com nenhuma das duas primeiras. Ele retorna as duas primeiras ao baú do baú e lá as esquece, mas deixa a terceira ali, no alto da estante. Dali pra frente, passaria a viver como antes. Ou tentaria. Os dias passariam e aos poucos ele se acostumaria. Não diria que esqueceria do ocorrido, da moça, do sorriso: não, isso jamais. Por mais que pudesse parecer que, no futuro, sua vida voltasse ao normal, deixaria o frasco lá pra sinalizar que pelo menos durante um longo tempo ele estaria ali pra ser preenchido, mas também pra dizer que ela teria sempre um lugar especial entre as coisas especiais.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Diálogo

Naquela esquina havia um certo vendedor, que vivia de vender artigos curiosos. Alguns diziam que ele vendia sonhos, outros, ilusão. Pouco se sabia sobre ele, mas era conhecido e prosperava. Certo dia uma bela moça chegou perto de seu tabuleiro, e ele rapidamente pôs-se a vender seus produtos. Esperto que era, notou na moça certa aflição, e do fundo da tenda retirou do seu baú secreto seus produtos mais valiosos. "Tenho uma garrafa de sorrisos, uma baú com a felicidade, uma caixinha com amor e esta moedinha mágica" disse, correndo a moeda por entre os nós dos dedos, "que você pode jogar no poço e fazer um pedido". A moça sorriu e perguntou "Seriam pedidos silenciosos?". E seu sorriso foi tão bonito que o coração do vendedor amoleceu. Havia algo diferente nela. Poderia ser o sorriso, os olhos profundos, a silhueta graciosa. Algo mexeu com ele, e acabou dizendo, meio bobo: "São sim, a gosto da freguesa". A moça sorriu de novo, e seu riso era mesmo bonito: quem passava parava e sorria também. "Quero a moedinha!" disse, parecendo mais feliz."É uma boa escolha", respondeu o vendedor, encantado. "Você pode pegar todos, se quiser", apressou-se a dizer "Sou barateiro: você pode pagar com sorrisos", acrescentou, sem jeito, e, por fim, se desmanchou: "Posso te dar o meu coração numa bandeja também. Ele vai até de graça, mas se você me der o seu ficarei agradecido. E será um excelente negócio, que te parece?". A moça sorriu, de novo, sem se assustar e de novo o vendedor sorriu, aliviado. Era como se soubessem da iminência daquele episódio. Ela perguntou: "Essa negociação é pra hoje?", e entristeceu levemente: "Porque algumas coisas não me parecem viáveis". "Aqui é a freguesa que manda", disse prontamente o vendedor, só pra arrancar mais um sorriso dela (e conseguiu). "Posso ir te pagando com os sorrisos então", ela disse. "Negócio fechado, freguesa", respondeu ele, em troca. "Sorrisos pela moeda mágica!", disse a moça, subitamente. "Sim, freguesa, mas negócios são negócios, você tem que pagar" e ela sorriu de novo, pagando. O vendedor sorriu também, mais uma vez. "Os outros três itens são pra depois?", perguntou "Quatro, aliás" corrigiu, dando ênfase ao coração na bandeja, "E por sorrisos, que pechincha!". A moça parou subitamente, séria, escondendo o sorriso de uma maneira brincalhona, seu cabelo lhe caiu sobre o rosto e num gesto gracioso ela o arrumou, dizendo: "Está desfazendo dos sorrisos da freguesa?". Seu corpo esguio pendeu pro lado, e o vendedor acompanhou o movimento, para o outro lado, como numa dança. Dessa vez ele quem sorriu: "Perdão freguesa, expressei-me mal. É que sou um homem dos negócios, essa coisa de atuação nunca deu certo pra mim. Quis dizer que os meus itens são valiosos, acho que faria bom uso deles. Quer que eu embale a moeda pra viagem?". Ela riu das palavras do vendedor, e do modo como elas foram ditas de modo desajeitado, porém com profunda sinceridade. Havia nele um desejo maior do que simplesmente vender as coisas. Ele queria vender pra ela, e ela sabia disso. E queria comprar tudo. "Entendi", respondeu. "Não precisa embalar não. Prefiro tê-la agora". O vendedor estendeu a moeda e deixou-a cair na mão da moça. Sua mão pousou sobre as dela e seus olhares se encontraram. "Faça bom uso", disse ele. Desviou o olhar sem jeito, mas não resistiu e olhou pra ela de novo "E a freguesa quer dizer porque não quer a garrafa de sorrisos, o baú com a felicidade e a caixinha com o amor?" indagou, sem jeito, deixando o coração de lado: naquele momento teve medo. "Acho que você devia pegá-los, desculpe a invasão", disse com a voz mansa, que diminuía aos poucos. "Eu quero!", respondeu ela rapidamente, como se com o mesmo medo que ele tinha, como se para animá-lo de novo. "Mas eu queria pegar aos poucos: tenho medo de não tê-los mais tarde, de esgotá-los". "Pode pegar todos de uma vez, se for a vontade de freguesa" apressou-se a dizer o vendedor. "Garanto que sempre vai chegar coisa nova. E pra fazer propaganda do produto: o baú da felicidade e caixinha com amor são tão fundos que eu nem conheço o fim deles. Até digo pra você tomar cuidado pra não se perder por ali. E veja que coisa bonita, nunca ninguém os teve, serão exclusivos seus. Que te parece?". A moça sorriu, e havia leveza no ar "Você está me convencendo", disse. "Sou bom nisso. É assim que se sobrevive aos negócios", gabou-se o vendedor. "Posso te dizer mais tarde?", perguntou a moça. "Pode sim, freguesa. Minha vontade é de vendê-los logo, mas posso guardá-los pra você. Ficarei feliz em saber que esses itens tão preciosos tem um comprador. E não esquece do coração na bandeja também", arriscou ele, sem resistir "Se você quiser pode até pagar depois", continuou, meio desesperado. "Mas é meio triste isso de coração na bandeja, não acha?" indagou a moça, pra surpresa do vendedor. Ele sorriu e disse: "Ora freguesa, não desfaça do produto. Ele tá aí de bom grado, e é bem difícil por ele aí, na verdade. A freguesa é meio insegura, não é? Moça tão bonita, não deveria ser assim". Os olhares se encontraram de novo, e ela sorriu. "Eu mal consigo olhar tanto pra esses olhos tão profundos", disse ele. Ela desviou o olhar e contemplou o vazio por alguns instantes "É, mas eles estão caídos e trêmulos agora", disse, sem jeito. "A freguesa tem sono, ou choras? É tristeza que ainda a aflige?", indagou o vendedor, preocupado. "Se eventualmente eu fizer cair lágrimas de felicidade aí posso até largar os negócios: viro viajante. Posso te levar pra um tal paraíso perdido, você teria um lugar garantido no meu bote". A moça sorriu, endireitou-se, balançou sobre as pernas - e ele também, em sincronia - e ela disse: "Tenho um pouco de medo". "Ora, a freguesa pode ficar tranquila. Primeiro nada que ela não faça de coração aberto será cobrado. E segundo: é uma terra cheia de cores e tons". Ela sorriu, aparentemente amolecida, e do seu riso bobo perguntou em tom de brincadeira. : "Tem pássaros lá?". O vendedor sorriu e perguntou: "A freguesa gosta de pássaros? Tem o que ela quiser lá. Acontece até d'eu ter uma amostra dessa terra por aqui", disse revirando o tabuleiro. Achou um pequeno conta gotas e estendeu a moça: "Basta uma gotinha na água que você beber, e você sonhará com este paraíso perdido". A moça aceitou instantaneamente, sorrindo. "Vou precisar", e riu. "Espero que a terra te encante, freguesa. Basta ser sincera e desejar profundo. Espero que você venha logo comprar essas coisas de mim".
Ela sorriu e olhou pra ele. Ele sorriu e olhou pra ela.