Muitas vezes chove naquela terra de ninguém. Chuva, tempestade, tormenta, raio, trovão. O povo se esconde, dentro das casas de pedra, e se põe a pensar. E como a tempestade nunca termina, o povo nunca para de pensar. E pensa. E os vizinhos daquela terra de ninguém não sabem que os pingos da chuva são idéias, e a terra fértil é a própria consciência.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
Ohrwurm
Estou de novo neste lugar onde os ventos sopram de uma maneira poética. Estou de novo encarando essa árvore cujas folhas secas ainda caem. Estou de novo olhando as folhas secas caírem, e se amontoarem no chão tão cheias de dor e arrependimento de terem ousado a dor da queda. Estou de novo embriagado debaixo dessa meia luz. Estou de novo desejando escutar essa música em um volume tão alto que faça meu ouvidos explodirem e eu não escute mais o que essa gente fale.
Canção de desgosto
Queria arrancar essa dor do peito,
como se pudesse arrancar a própria carne.
Um tiro no peito, vários remédios.
Lançar-me ao sol, bem de perto
queimar-me por inteiro.
Livrar-me da sombra,
Que insiste em me abraçar.
Quero cavar um buraco no chão
E enterrar essas coisas lá.
Ou voar pra dez mil milhas daqui
Pra recomeçar.
Espero ver mais coragem
Em outros rostos
Sentir outro gosto
que não o desgosto.
como se pudesse arrancar a própria carne.
Um tiro no peito, vários remédios.
Lançar-me ao sol, bem de perto
queimar-me por inteiro.
Livrar-me da sombra,
Que insiste em me abraçar.
Quero cavar um buraco no chão
E enterrar essas coisas lá.
Ou voar pra dez mil milhas daqui
Pra recomeçar.
Espero ver mais coragem
Em outros rostos
Sentir outro gosto
que não o desgosto.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
O destino das folhas
Sempre que a brisa é forte as folhas da árvore dançam, embaladas num ritmo suave. Normalmente frágeis, elas caem no chão ao serem embaladas. A queda é lenta e harmoniosa. Devagar as folhas pairam sob o ar, como se resistissem a queda de inicio, mas logo aceitam e se rendem ao destino iminente. Depois de viver a queda, chegam ao chão. Chegar ao chão é duro. Chega-se ao chão depois de muito tempo, mas sempre há a sensação de que chegou-se ali muito rápido. O gosto do chão é ruim. Tão amargo quanto o gosto do desgosto. Ao chegar no chão, a lembrança da queda é sempre iminente. As folhas, ao fim da queda, se desfazem. Retornam à terra. E pro tempo futuro deixam de existir. É, na verdade, como se nunca tivessem existido. Depois o tempo passa e sopra a pilha de folhas mortas no chão, carregando um punhado pra longe. Cada dia um punhado. Como se quisesse levar todas as folhas dali e deixar só aquele vazio que resta da queda.
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
O diálogo do palhaço triste e da bailarina que tinha feito ele feliz
"É tão clichê tudo isso."
"Isso o que?"
"De ajudar os outros e não ajudar a si mesmo"
"É mais fácil ver as coisas de fora da caixa"
"É, poeta? Me diz você ..."
"Eu não: sou só fingidor"
"Porque você escolheu ser assim?"
"Eu escolhi? Não lembro de ter escolhido"
"O que você faz pra ser feliz?"
"Não faço, não sou"
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Silenciosa cólera
O papel branco fita o pincel, malandro
E o convida pra dançar
não saem textos dessa folha em branco.
Há uma melodia,
Que esconde a cólera consigo
Mas esses acordes não combinam,
São tronchos, e ela já não faz mais sentido
Há esse silêncio, agora
Da quimera de sonhos, jogada no asilo
Pra rolar alguns dados e esperar a sorte
Guardar desejos em sigilo
Há esse desejo, que tenta,
em vão,
Empurrar pra fora palavras não ditas
O grito está preso na garganta
Engasga e golfa
Se debate e luta
Está em cólera
E esse silêncio corta.
E o convida pra dançar
não saem textos dessa folha em branco.
Há uma melodia,
Que esconde a cólera consigo
Mas esses acordes não combinam,
São tronchos, e ela já não faz mais sentido
Há esse silêncio, agora
Da quimera de sonhos, jogada no asilo
Pra rolar alguns dados e esperar a sorte
Guardar desejos em sigilo
Há esse desejo, que tenta,
em vão,
Empurrar pra fora palavras não ditas
O grito está preso na garganta
Engasga e golfa
Se debate e luta
Está em cólera
E esse silêncio corta.
domingo, 26 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Último
eu olho e nada vejo, meus olhos só vagueiam
te procuro, mas não acho, e me perco
amo, e em silêncio frustrado encolerizo e quebro o espelho
e só o que me resta já não me basta
sabia que isso seria uma ironia: teria que juntar esses cacos,
que o espelho se partiria em mil pedaços
seria melhor, talvez, ter guardado tudo numa garrafa e jogado fora
assim, como quem não quer nada
do mesmo modo que as minhas perguntas são ignoradas
jeito não tenho a dar
mais e mais quero jogar tudo fora nessas águas negras, neste mar
profundo e desconhecido.
te procuro, mas não acho, e me perco
amo, e em silêncio frustrado encolerizo e quebro o espelho
e só o que me resta já não me basta
sabia que isso seria uma ironia: teria que juntar esses cacos,
que o espelho se partiria em mil pedaços
seria melhor, talvez, ter guardado tudo numa garrafa e jogado fora
assim, como quem não quer nada
do mesmo modo que as minhas perguntas são ignoradas
jeito não tenho a dar
mais e mais quero jogar tudo fora nessas águas negras, neste mar
profundo e desconhecido.
segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Chuva
Havia um punhado de textos que deveriam ter sido escritos no vapor no espelho, mas água morna não embaça vidro, e os versos tão bonitos foram perdidos. Escorreram pelo ralo como mentiras tão bem feitas e se perderam num esgoto imundo, nebuloso como os escombros de uma mente atormentada. Quando os versos tão bonitos tentaram ser resgatados formaram um texto troncho. Da neblina fez-se chuva. E choveu, de novo. Mas chove sempre nos jardins de uma mente nebulosa. Peneira uma chuvinha fina, daquelas que não molha. E ao mesmo tempo daquelas que é suficiente pra fazer desaguar no oceano a melancolia desses dias cinzentos. Tão rápido ela faz-se tempestade e traga pra dentro de si todo o céu azul que desperta a manhã. A chuva silencia o barulho. E é o barulho que liga a gente ao mundo. Ele atesta existência. Quando o barulho vira música, há de haver felicidade. Mas com essa chuva eu nada posso ouvir.
quinta-feira, 16 de outubro de 2014
Tempo
Faz tempo que o sol não jorra da janela. Faz tempo que não chove e é frio do lado de fora. Faz tempo que a casca da árvore cresce e a floresta adormece. Faz tempo que a fumaça do cigarro queima e ele não apaga. Faz tempo que esse cheiro toma conta da casa e ninguém sente. Faz tempo que a tristeza é um colar e faz tempo que ela é uma corrente. Faz tempo que as palavras não são ditas. Faz tempo que a falta é sentida. Faz tempo que a cidade não é mais tão bonita, faz tempo que as coisas fazem sentido. Faz tempo que a esperança está doente e faz tempo que ninguém sabe se ela vai se recuperar. Faz tempo que os males são irremediáveis e faz tempo que tenta-se negar isso. Faz tempo que tem-se dado tempo ao tempo e faz tempo que o conselho deixou de servir. Faz tempo que as tentativas são frustradas. Faz tempo que faz tempo tudo isso. O tempo faz o tempo. O tempo faz com que a janela fique fechada. O tempo faz com que só faça sol e seja quente. O tempo faz com que a floresta adormeça. O tempo faz com que o cheiro seja imperceptível. O tempo faz com que a tristeza passe. O tempo faz com que a tristeza volte. O tempo faz com que as palavras não saiam da boca. O tempo faz sentir falta. O tempo faz com que a cidade seja feia. O tempo faz com que as coisas não tenham sentido. O tempo adoece a esperança e faz com que ninguém saiba da sua saúde. O tempo não remedia o mal, e se o tempo não remedia o mal, nada mais remedia. O tempo faz com que o tempo não tenha tempo e que os conselhos se desgastem. O tempo faz tempo todo tempo. O tempo fecha a janela. Faz tempo que todo o meu amor é vão. O tempo faz que todo meu amor é vão. Vão faz o tempo e todo o meu amor. O meu amor é vão e faz o tempo. Vão, oh meu amor, é o tempo. Faz tempo.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
O brado de ódio
Nu, de novo, as feridas abertas.
Mais uma vez está de peito aperto.
Está sentado na rua, desolado,
banhado pela luz alaranjada
daquela cidade imunda.
Está frustrado,
de novo,
cansado de vagar a esmo.
O tempo é muito vagaroso:
ouve-se uma pergunta tímida
- "até quando?" -,
mas não há resposta que tranquilize
não existem palavras
além das que se quer ouvir
que podem mudar aquilo.
Está com raiva, de novo
a cinzenta canção de dor e perda se transforma mais uma vez num brado de ódio
nele engasga toda angústia,
todo desejo de mudança,
toda frustração da estar no mesmo lugar a tanto tempo.
Nele engasga a falta de perspectiva,
o desespero, o cansaço de tentar e errar e repetir esse processo infinitamente.
Nele está o sentimento de mal irremediável:
tenta relutar em aceitar o fato, mas segue e termina como está.
Nele está a agonia de não perceber as coisas escondidas á meia luz,
mas de enxergar os espaços na poesia social
e não conseguir ocupá-los.
Sobre ele paira a ausência, na forma de uma sombra escura.
Mas o brado é silencioso.
Habita os escombros de uma mente nebulosa
e é como um sentimento adormecido,
que ora desperta e preenche
e ora adormece e reconforta.
Mais uma vez está de peito aperto.
Está sentado na rua, desolado,
banhado pela luz alaranjada
daquela cidade imunda.
Está frustrado,
de novo,
cansado de vagar a esmo.
O tempo é muito vagaroso:
ouve-se uma pergunta tímida
- "até quando?" -,
mas não há resposta que tranquilize
não existem palavras
além das que se quer ouvir
que podem mudar aquilo.
Está com raiva, de novo
a cinzenta canção de dor e perda se transforma mais uma vez num brado de ódio
nele engasga toda angústia,
todo desejo de mudança,
toda frustração da estar no mesmo lugar a tanto tempo.
Nele engasga a falta de perspectiva,
o desespero, o cansaço de tentar e errar e repetir esse processo infinitamente.
Nele está o sentimento de mal irremediável:
tenta relutar em aceitar o fato, mas segue e termina como está.
Nele está a agonia de não perceber as coisas escondidas á meia luz,
mas de enxergar os espaços na poesia social
e não conseguir ocupá-los.
Sobre ele paira a ausência, na forma de uma sombra escura.
Mas o brado é silencioso.
Habita os escombros de uma mente nebulosa
e é como um sentimento adormecido,
que ora desperta e preenche
e ora adormece e reconforta.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
A poesia social
a felicidade é vã como o céu azul de um dia ensolarado e eu de ressaca
o entardecer é mais inebriante por entre os prédios dessa cidade
como o seu sorriso, perdido e escondido
numa alegria que vem do nada
a vida é cretina, perversa e pervertida
é um mar de vastas emoções e pensamentos imperfeitos
e eu dentro de um carro, longe daqui, a dez mil milhas por hora
vendo o céu azul me tragar como se eu fosse fumaça
na escuridão que esconde a noite
não posso me esquivar
dos espaços vazios em que me esbarro
e vejo, escancarada,
a poesia social
o entardecer é mais inebriante por entre os prédios dessa cidade
como o seu sorriso, perdido e escondido
numa alegria que vem do nada
a vida é cretina, perversa e pervertida
é um mar de vastas emoções e pensamentos imperfeitos
e eu dentro de um carro, longe daqui, a dez mil milhas por hora
vendo o céu azul me tragar como se eu fosse fumaça
na escuridão que esconde a noite
não posso me esquivar
dos espaços vazios em que me esbarro
e vejo, escancarada,
a poesia social
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Quanto valem os seus sonhos?
"Quanto vale o seu sonho?", indagou-me a figura. "Um punhado de reais?". Por longo tempo fiquei, mais uma vez, calado na escuridão de uma interrogação pungente e tristonha, como o céu nublado daquela manhã de segunda. Não existe dúvida maior do que aquela que divide o sonho e a realidade. Que cruza os meandros da consciência e escreve num quadro negro com giz rasgando e silêncio da paz interior: "decifra-me, ou te devoro". Eu talvez ainda queira tentar mudar o mundo. Existem coisas que dado o erro inevitável ainda vale a tentativa. Eu talvez ainda possa mudar o mundo. E os meus sonhos não valem um punhado de reais.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
A poesia social
Paz hoje é caos urbano
O espelho, a janela do ônibus
A meditação não é silenciosa
É admirar o céu rasgado de concreto
Em meio ao mar de gente nervosa
De dia é quente
Aperto os olhos contra o sol
Bocejo, desejo, espero
Penso, reflito, divago
Retorno, retraio, entristeço
Devaneio e renasço
De noite, quando a rua é laranja
Os carros andam velozes
A vida é mais agitada
O cansaço inebriante
Exposto em olhos profundos
Que lá no fundo tragam o mundo
O espelho, a janela do ônibus
A meditação não é silenciosa
É admirar o céu rasgado de concreto
Em meio ao mar de gente nervosa
De dia é quente
Aperto os olhos contra o sol
Bocejo, desejo, espero
Penso, reflito, divago
Retorno, retraio, entristeço
Devaneio e renasço
De noite, quando a rua é laranja
Os carros andam velozes
A vida é mais agitada
O cansaço inebriante
Exposto em olhos profundos
Que lá no fundo tragam o mundo
segunda-feira, 2 de junho de 2014
A poesia social
As pessoas dormem
Seus sonhos se esvaem pelas janelas
Elas esperam pelo final
Da hora do dia da semana do mês do ano
Pra aliviar cansaço e dor
Triste é pensar que o mundo não espera
que as coisas são findas
Voláteis, dispersas
Só posso concluir que felicidade
É realmente
A ausência de percepção de que as coisas um dia acabam
Minha mente lucida volta-se sempre para o tempo
Nela a mudança é rápida
Um sopro
E o tempo pra mudar já se foi.
Mas, temerosa, sente que talvez
Se o tempo passasse mais rápido a vida seria nada
Vã como a tarde de um dia ensolarado de domingo
Vil como a noite e o cansaço
Perversa como os desejos de uma mente febril
E abstrata como os corpos em movimento
Numa noite enluarada
E o pensamento relevado
Naquele momento específico em que os corpos falam
Ah, se eu pudesse descrever,
capturar de alguma forma
O momento em que os corpos falam
a mente abre mão de governar
E a poesia social espalha-se em música
Uma melodia escrita no vento
Por uma menina - Poesia -,
De vestido azul e varinha
Que a faz rodopiar
Por entre corpo e mente
Na profunda escuridão da noite boemia
Seus sonhos se esvaem pelas janelas
Elas esperam pelo final
Da hora do dia da semana do mês do ano
Pra aliviar cansaço e dor
Triste é pensar que o mundo não espera
que as coisas são findas
Voláteis, dispersas
Só posso concluir que felicidade
É realmente
A ausência de percepção de que as coisas um dia acabam
Minha mente lucida volta-se sempre para o tempo
Nela a mudança é rápida
Um sopro
E o tempo pra mudar já se foi.
Mas, temerosa, sente que talvez
Se o tempo passasse mais rápido a vida seria nada
Vã como a tarde de um dia ensolarado de domingo
Vil como a noite e o cansaço
Perversa como os desejos de uma mente febril
E abstrata como os corpos em movimento
Numa noite enluarada
E o pensamento relevado
Naquele momento específico em que os corpos falam
Ah, se eu pudesse descrever,
capturar de alguma forma
O momento em que os corpos falam
a mente abre mão de governar
E a poesia social espalha-se em música
Uma melodia escrita no vento
Por uma menina - Poesia -,
De vestido azul e varinha
Que a faz rodopiar
Por entre corpo e mente
Na profunda escuridão da noite boemia
domingo, 11 de maio de 2014
Sujeitos perfeitos
a minha poesia é o que me move
mas é também o que me mata
nos recantos da alma metralhada
ainda há melodia
que narra a vida
me move
como minha poesia
e as vezes me vejo
em outros sujeitos
de todos os sujeitos
no canto de um bar
ou numa mesa numa sala de estar
e eu cometo o erro
de pensar as vezes
que esses sujeitos
são todos perfeitos
mas é também o que me mata
nos recantos da alma metralhada
ainda há melodia
que narra a vida
me move
como minha poesia
e as vezes me vejo
em outros sujeitos
de todos os sujeitos
no canto de um bar
ou numa mesa numa sala de estar
e eu cometo o erro
de pensar as vezes
que esses sujeitos
são todos perfeitos
sábado, 3 de maio de 2014
Raiva ou paranoia
Ás vezes eu sinto vontade de simplesmente mandar os senhores ao inferno,
mas frequentemente me vem a ideia de que isso é mera paranoia.
Ou será que não?
mas frequentemente me vem a ideia de que isso é mera paranoia.
Ou será que não?
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